ESPECIAL: empreender vira questão de sobrevivência em Marabá, no Pará; assista

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Na primeira parte da série ‘Não paramos: os impactos da Covid-19 na vida de quem não pôde parar’, desembarcamos na cidade de Marabá, no sudeste paraense, para conhecer a história de trabalhadores que viram a vida mudar de rumo na quinta cidade com mais casos de covid-19 no Pará.

Conheça a seguir a história de Cecília Frank, que trabalha há mais de 20 anos vendendo alimentos e usou o empreendedorismo para driblar a dificuldade financeira e a mudança social provocada pelo isolamento:

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Atravessando desafios

Além de Cecília, Marabá também é lar de Raniere Mourão, que aos 57 anos de idade faz a travessia de banhistas para a Praia do Tucunaré, próxima a orla da cidade. Os barcos e rabetas ficam disponíveis nos pontos de embarque da orla e a travessia custa R$5,00 por pessoa. Na praia, os visitantes podem optar pelas barracas que colocam suas mesas dentro da água, servindo comidas e bebidas ou ficar nos acampamentos. Também há espaço para aqueles que preferem levar o próprio guarda-sol e cadeiras, para montar seu próprio espaço na areia.

Raniere conta que aprendeu o ofício, que já executa há 30 anos, com o pai, que utilizava a embarcação para atravessar banhistas durante o verão e em outras estações trabalhava com transporte de Castanha do Pará. Ele foi o único filho que decidiu permanecer como atravessador.

“O barco era do meu pai, que arriava Castanha (do Pará) dos igarapés em uma época e no verão atravessava gente para a praia como faço até hoje. Na minha família, só eu que quis essa vida”, conta.

Raniere, que divide o ofício de barqueiro com o trabalho de agente penitenciário, relembra que no início da Pandemia, em março de 2020, a região vive o chamado Inverno Amazônico, onde o alto volume de chuvas provoca alagamentos em diversos pontos da cidade e impede a atividade da travessia para o lazer: “O rio sobe muito no começo do ano, então o pessoal que atravessa aqui faz outras coisas: puxa peixe de algum lugar, com vendas, ou levando as pessoas de uma cidadezinha para a outra. Agora tem menos opções, mas no passado já teve ciclos onde o pessoal transportava Castanha (do Pará), minérios, madeira e até mesmo ouro, então o pessoal que atravessa, atravessava o ano inteiro, seja gente ou produto” diz.

Ele relata que no período de chuva, a água chega a transbordar a orla, mas que começa a baixar no mês de abril. Desta forma, as travessias para lazer acontecem entre os meses de maio e setembro, embora o movimento mais intenso seja no mês de julho, devido ao períodos de férias escolares e o verão paraense: “A queda de faturamento ficou entre 50, 60% principalmente no mês de julho, mas além disso também teve mudanças na liberação do acesso a praia: em 2020 e 2021, a praia só foi liberada em julho, mas com horário reduzido e várias restrições. O acesso só foi normalizado desde quando o rio baixou a partir de agora (2022)”.

O barqueiro cita que teve impacto na renda doméstica, mas que foi suavizado pelo outro trabalho formal como agente penitenciário: “Tirava dinheiro de casa pra investir no barco, estar tudo direitinho e bem preparado. Quando o turista chega, ele quer estar em um lugar bonito e arrumadinho. Eu acredito que só deu para fazer isso porque tenho esse outro trabalho. Quando a gente vê os barcos mais velhos e não arrumados é porque a pessoa vive só daqui mesmo (do rio)”. Ao ser questionado sobre o recebimento de algum auxílio, ele diz que não recebeu devido ao fato de ter continuado trabalhando no outro emprego, mas que muitos receberam apenas o Auxílio Emergencial, oferecido pelo Governo Federal: “Quebrou a renda de muita gente, mas todo mundo aqui é costumado a trabalhar, então mesmo com o perigo deram um jeito de continuar trabalhando e ganhando dinheiro para sobreviver”, destaca.

Assistência local

Luiz Silva de Souza, diretor da Secretaria de Assistência Social, Proteção e Assuntos Comunitários (Seaspac) de Marabá, explica que houve uma busca recorde da população junto a Secretaria Municipal de Assistência Social: “Ainda em 2020, fizemos o anúncio do Programa Apoio Marabá (PAM), que pagou um auxílio emergencial no valor de R$ 500,00 para 2 mil trabalhadores do setor artístico musical, trabalhadores em bares e ambulantes móveis”.

Luiz cita que diferente de outros perfis de trabalhadores, os grupos contemplados pelo Programas Apoio Marabá (PAM) encontraram dificuldade em se posicionar em outras áreas, então acabaram com uma necessidade mais urgente segundo os dados dados preliminares levantados pela prefeitura na época (em 2020). Ao todo, Luiz destaca que a principal população beneficiada pelo PAM foram mulheres (70% em média, com idades entre 18 e 50 anos). Ele explica que “Algumas acabam cuidando da família inteira e acabam responsáveis pela família, em todas as faixas etárias há casos semelhantes” diz.

No entanto, a necessidade na época não foi apenas de dinheiro. Luiz relata que “Na época tivemos casos bem atípicos, como de pessoas que vieram de outras cidades do interior do Estado tentar a vida em Marabá e não conseguiram se sustentar, assim como de outras pessoas que chegavam chorando e envergonhadas pedindo alimento ou remédios”. Ele cita que “As medidas tomadas neste caso foram desde dar a passagem para que o morador que veio de outra cidade pudesse voltar para casa, assim como conseguir doações de alimentos e medicamentos para ajudar essa parte da população”, conta.

Novas metas

Ao olhar para o presente e o futuro, Raniere diz que a recuperação está acontecendo a passos lentos, mas se mostra confiante: “De lá pra cá aumentou tudo, diesel, gasolina, alimentos. Isso acaba encarecendo nosso trabalho e a gente se vê obrigado a diminuir a margem de lucro pra não perder cliente. Melhor garantir muitas travessias a um preço mais baixo, do que poucas a um preço mais alto”, no entanto, ele destaca “Dessa vez a gente vai poder trabalhar mais cedo, desde a baixa do rio. Espero que o volume de turistas para atravessar volte a ser o que era antes, porque com isso a gente pode até demorar a recuperar renda porque tá tudo caro, mas pelo menos mantém um avanço constante. Pode até ser pequeno, mas é constante”, declara.

SAIBA MAIS

Série inédita mostra histórias de empreendedores paraenses durante a pandemia

A série ‘Não paramos: os impactos da Covid-19 na vida de quem não pôde parar’ foi criada e produzida pela jornalista Tereza Coelho com apoio do International Center for Journalists (ICFJ), Meta Journalism Project e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disponível com exclusividade no Portal Roma News

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