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Passando pelo Pará, investigação revela rota do tráfico de drogas do Amazonas até o RJ

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A Secretaria de Polícia Civil fez um balanço da Operação Rota do Rio, realizada para desarticular uma das principais estruturas de fornecimento de drogas em atacado da organização criminosa Comando Vermelho, instalada nos morros e favelas do Rio. O grupo atuava em parceria com uma das facções do estado do Amazonas (CVAM), instalada na região norte do país. Levantamento financeiro aponta que, em um período de dois anos, a organização criminosa movimentou aproximadamente R$ 30 milhões em recursos ilícitos.

Os agentes cumpriram 99 mandados de busca e apreensão domiciliar expedidos pela Justiça, nos Estados do Rio de Janeiro, Amazonas, Minas Gerais e Pará, contra pessoas físicas e jurídicas identificadas como integrantes ou associados a um dos braços operacionais e financeiros do Comando Vermelho.

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Foram constatadas nas operações a existência de uma rota de distribuição de drogas entre Tabatinga (AM), na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, e a capital fluminense, separadas por uma distância de 5.786 quilômetros de carro. A investigação do Departamento de Combate ao Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro do Rio de Janeiro demonstrou que o Comando Vermelho recebe drogas que vêm dos países vizinhos. Tabatinga faz fronteira com as cidades de Letícia, na Colômbia, e Santa Rosa de Yavari, no Peru, e é a porta de entrada das drogas em território brasileiro.

A Polícia do Rio investiga se parte do material, após chegar a Manaus, é levada também para o Ceará, a fim de ser distribuída para outros portos do Nordeste, e para o Pará. Outra parte desce o país transportada clandestinamente através de carros ou caminhões, passando pelo Centro-Oeste e por Minas Gerais.

Finalmente, a pasta-base de cocaína e o skunk chegam até Cleiton Souza da Silva, um dos principais operadores do Comando Vermelho do Amazonas no Rio de Janeiro. Alguns desses mandados tinham como locais o interior das comunidades Fallet, Fogueteiro, na região central da cidade, além de endereços nobres da cidade: Ipanema, Arpoador, Copacabana, Barra da Tijuca, Catete, Recreio; e regiões de praia da Região dos Lagos, como Cabo Frio e Búzios.

Jefferson Ferreira, titular da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), descreveu como funciona o caminho das drogas e do dinheiro: “O caminho da droga vem da tríplice fronteira (Brasil-Colômbia-Peru), passando por Manaus, vindo para o Rio de Janeiro, e o dinheiro faz o caminho contrário”, explicou ele.

Entre os quatro presos na operação da última terça-feira, 21, estava o traficante Juan Roberto Figueira da Silva, o Cocão, no Morro dos Prazeres. Segundo a Polícia Civil, ele era um dos principais responsáveis pelos roubos de veículos e a posterior clonagem dos carros. O dinheiro obtido com esses crimes era utilizado para comprar as drogas que vinham pelo esquema da Rota do Rio.

“Além de quebrar essa cadeia financeira de comprar droga vendendo veículos roubados, clonados, vai impactar nos nossos índices do próximo trimestre, porque ele era uma das principais lideranças nessa clonagem e roubo de veículos”, explicou o chefe do Departamento de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro, Gustavo Ribeiro.

Como aconteciam as lavagens

Segundo as investigações, a quadrilha realiza pagamentos de forma pulverizada a diversos laranjas e empresas, como um frigorífico, para dificultar as investigações. Em 2 anos, o grupo movimentou R$ 27 milhões em atividades ilícitas. Após a chegada das drogas no Rio, Cleiton, que nasceu no Amazonas, distribui as drogas para diversas comunidades e municípios do estado, além de bairros da Zona Sul e oeste da cidade. O dinheiro obtido com a venda de drogas é enviado para Cleiton, que a partir disso envia os pagamentos por diversas contas de passagem para que os valores voltem para o local do início do esquema criminoso, na fronteira.

O chefe do Departamento de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro, Gustavo Ribeiro, explicou que, segundo as investigações, o frigorífico localizado no Município de Boa Fonte é utilizado para “lavar” o dinheiro do tráfico, em uma prática conhecida como “Mescla”. O sócio do frigorífico utilizado no esquema é Raimundo Pinheiro da Silva, o Chicó, que foi prefeito no Município de Anamã, no Amazonas. “É aí que entra o ex-prefeito, que tem um frigorífico e um comércio de pescado que eram também utilizados para a movimentação da droga, e esses comércios de fachada eram usados como uma mescla para receber esses valores justamente dessa rota final do tráfico”, explicou Gustavo.

Raimundo foi cassado duas vezes após ser acusado de compra de votos e abuso de poder econômico. “Nós comprovamos que parte desse poder econômico vem do tráfico de drogas do Rio de Janeiro”, afirmou o secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim. O ex-prefeito fugiu para Brasília poucas horas antes da chegada dos policiais que foram cumprir mandados de busca e apreensão na sua casa.

O esquema funciona, segundo as investigações, desde o enfraquecimento da facção Família do Norte (FDN), que sofreu um racha. O grupo teve a maioria dos seus líderes presa. Segundo a Polícia Civil do Amazonas, parte dos traficantes da antiga facção fundou o Comando Vermelho do Amazonas, que hoje domina a maioria dos territórios de Manaus e disputa com o PCC o controle do tráfico na tríplice fronteira. “É uma tábua de salvação do Comando Vermelho. Após o racha da Família do Norte, essa rota deu sobrevida ao Comando Vermelho porque tem muita capilaridade de entrega de armas, de drogas”, explicou o secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim.

Atualmente, o principal nome do CV no Amazonas é o traficante Kaio Wellington Cardoso dos Santos, conhecido como Mano Kaio, que está foragido. Ele foi preso no Rio de Janeiro em 2017, quando ainda era integrante da Família do Norte.

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