Publicado em 5 de abril de 2025 às 22:42
Um caso inusitado e impressionante veio à tona nos últimos dias envolvendo o juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Por mais de 45 anos, o magistrado construiu e sustentou uma identidade falsa: a de um suposto nobre britânico chamado Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield.>
Durante esse período, Franco dos Reis não apenas assinava documentos sociais com o nome inventado, como também vivia intensamente o personagem. Ele frequentava eventos sociais, fazia aparições públicas com roupas características da aristocracia britânica e, por vezes, assumia um sotaque inglês forçado. Em reuniões e encontros privados, o ex-juiz contava histórias minuciosas sobre sua suposta linhagem real, mencionando ancestrais lendários e relações imaginárias com figuras históricas do Reino Unido.>
Vida dupla>
Enquanto no Tribunal de Justiça ele manteve uma carreira formal e respeitada, fora do ambiente jurídico, José Eduardo mergulhava no personagem fictício. Ele participava de festas da alta sociedade paulista, comparecia a eventos culturais e sociais seletos e se apresentava, sem hesitação, como descendente direto da nobreza britânica.>
A dedicação ao personagem era tamanha que ele passou a exigir tratamento especial em círculos sociais, utilizando termos como “Sir” antes de seu nome falso e exigindo ser chamado de “Lord Wickfield” em algumas ocasiões. Ele também ostentava brasões de família falsificados e, em algumas aparições, utilizava insígnias e adereços que imitavam condecorações britânicas.>
A queda da farsa>
A farsa começou a ruir após conhecidos e antigos colegas desconfiarem de inconsistências em suas narrativas. Detalhes históricos equivocados, contradições sobre sua trajetória e a falta de registros oficiais no Reino Unido chamaram a atenção. Uma investigação informal, posteriormente formalizada, revelou que não havia qualquer Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield registrado em bases de dados britânicas.>
A apuração confirmou que José Eduardo Franco dos Reis nascera e vivera toda a vida no Brasil, sem qualquer vínculo com a aristocracia inglesa. Documentos civis brasileiros mostraram que ele nunca havia alterado oficialmente seu nome nem feito solicitações de dupla cidadania.>
O caso gerou perplexidade não apenas pela complexidade da farsa, mas também pela duração: por mais de quatro décadas, ele conseguiu manter sua vida dupla sem ser contestado publicamente.>
Consequências jurídicas e repercussão>
Até o momento, não há registros de que o ex-magistrado tenha utilizado a identidade falsa para cometer crimes financeiros, fraudes judiciais ou receber benefícios indevidos. Por estar aposentado, o Tribunal de Justiça de São Paulo informou que não pode aplicar sanções administrativas a José Eduardo. A instituição, no entanto, lamentou o episódio e destacou a importância de manter a integridade moral mesmo após a aposentadoria.>
Entre colegas da magistratura e a sociedade civil, a revelação provocou reações mistas. Enquanto alguns manifestaram perplexidade e até incredulidade diante da sofisticação da farsa, outros destacaram como o fascínio por títulos nobiliárquicos ainda persiste em alguns segmentos sociais.>
Especialistas em direito e sociologia consideram o caso um exemplo de “impostura social simbólica”, quando alguém cria uma identidade para conquistar prestígio e influência em determinados grupos, mesmo sem benefícios econômicos diretos.>
O silêncio do protagonista>
Procurado pela imprensa, José Eduardo Franco dos Reis ainda não se manifestou publicamente sobre o caso. Fontes próximas ao ex-magistrado afirmam que ele estaria recluso em sua residência em São Paulo, evitando aparições públicas e visitas.>
O episódio coloca em debate a facilidade com que símbolos e narrativas podem ser utilizados para construção de prestígio social, mesmo em tempos de informação amplamente acessível e verificável.>