Publicado em 19 de fevereiro de 2025 às 07:54
Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado indica que, em 2024, foram registrados 6.769 tiroteios nas regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Recife, Belém e Salvador. Como resultado, foram 5.936 pessoas baleadas, 4.104 mortos e 1.832 feridos. Quase um terço do total de tiroteios monitorado (29%) ocorreram durante ações policiais.>
Segundo o instituto, o mapeamento nessas quatro metrópoles, que abrangem Sudeste, Nordeste e Norte do país, possibilita identificar padrões comuns e especificidades regionais no uso da força letal pelo Estado. Além disso, é possível compreender a dimensão dos conflitos entre grupos armados no cotidiano de grandes centros urbanos.>
“A violência armada segue como um grande desafio. Os impactos são devastadores, especialmente para crianças, adolescentes e comunidades vulneráveis. A flexibilização do acesso a armas de fogo, sem o acompanhamento dos mecanismos de fiscalização, combinada com uma política de segurança pública centrada no confronto, tem contribuído para a manutenção deste ciclo de violência, algo que não é novidade, mas que vem aparecendo a cada novo relatório anual”, analisa Cecília Olliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado.>
Os dados do estudo reforçam o argumento. Entre 2017 e 2023, houve aumento de 227% no número de armas registradas. No total, há cerca de 4,8 milhões de armas em posse da população civil.>
Outro dado preocupante é o de pessoas que morreram em confrontos com agentes de segurança: entre 2015 e 2024, foram 51 mil pessoas.>
Pará>
No Pará, foram 694 tiroteios registrados na região metropolitana de Belém, sendo que 42% ocorreram durante ações policiais. É o maior índice entre os quatro estados monitorados, superando Rio de Janeiro (36%) e Bahia (38%). Dos 686 baleados em 2024, 96 vítimas foram atingidas em ataques armados e somente duas pessoas ficaram feridas por balas perdidas.>
Rio de Janeiro>
O Rio de Janeiro registrou 2.532 ocorrências de disparos de arma de fogo ao longo de 2024, com uma média de sete tiroteios diários na região metropolitana. Esse é o menor índice contabilizado pelo instituto desde 2017, no início da série histórica. O pico foi em 2018, com 9.633 registros.>
Apesar da redução, 2024 teve a maior proporção de tiroteios policiais já registrada, sendo 36% relacionados a operações policiais. Foram afetadas 1.968 unidades de ensino e 1.136 unidades de saúde. Também houve recorde no número de crianças baleadas no ano passado. Foram 26 jovens até 11 anos de idade baleados, maior índice da série histórica.>
Pernambuco>
Na região metropolitana do Recife, houve queda de 1.827 tiroteios em 2023 para 1.748 em 2024, redução de 4%. Mesmo assim, o número de registros em 2024 é o segundo maior da série histórica.>
Segundo o Fogo Cruzado, Pernambuco tem os índices mais preocupantes de violência do estudo, com 97% dos disparos ocorridos na região metropolitana resultando em vítimas, o maior índice em todos os estados mapeados pelo instituto.>
Em 2024, o número de crianças e adolescentes baleados atingiu recorde, com 147 baleados, resultando em 101 mortes. Desde 2019, já são 735 casos de jovens até 17 anos de idade baleados.>
Bahia>
Na região metropolitana de Salvador, os números tiveram pequena redução de 0,4% em comparação a 2023. Foram 1.795 ocorrências de disparos de arma de fogo em 2024, contra 1.804 no ano anterior. Em média, a Bahia registrou cinco tiroteios diários na região metropolitana, com 38% dos confrontos originados em ações policiais. No ano anterior, essa proporção foi de 36,5%.>
Em 2024 foram registradas 27 registradas chacinas, resultando na morte de 92 civis. Em 2023, foram 48 chacinas, com 190 mortos. Em 2024, 59% das chacinas aconteceram em ações policiais. Em 2023, a taxa foi de 69%. A polícia ainda é responsável por mais da metade das chacinas ocorridas na região.>
Medidas urgentes>
Diante dos números preocupantes da violência armada, a diretora do Fogo Cruzado defende a urgência de políticas públicas coordenadas e baseadas em evidências.>
“Há 8 anos apresentamos números que traduzem a dor das famílias e o medo do cidadão. Há 8 anos vemos mais do mesmo nas políticas públicas de segurança. É preciso pensar em estratégias com metas claras, planejadas a partir dos dados produzidos pelo poder público e sociedade civil, com atenção especial para a fiscalização, o controle de armas e a reformulação das estratégias de enfrentamento, que precisam ser calcadas em evidências e inteligência. A violência é hoje a maior preocupação do brasileiro, superando saúde e educação”, defende.>