Pesquisadores indígenas viajam à Suécia para identificar peças etnográficas enviadas em 1925

Pesquisadores indígenas viajam à Suécia para identificar peças etnográficas enviadas em 1925 e fortalecer a memória cultural de seus povos.

Publicado em 19 de março de 2025 às 14:34

Pesquisadores indígenas viajam à Suécia para identificar peças etnográficas enviadas em 1925
Pesquisadores indígenas viajam à Suécia para identificar peças etnográficas enviadas em 1925 Crédito: Divulgação/Fapespa

No início de março, pesquisadores indígenas das etnias Palikur e Galibi Marwono desembarcaram na Suécia para identificar peças etnográficas enviadas à Europa pelo etnólogo Curt Nimuendajú em 1925. A viagem integra os projetos “Digital Repatriation”, financiado pelo Swedish Research Council (Conselho Científico Sueco), e “Energia Limpa, Vida Sustentável”, fomentado pela Fapespa.

O trabalho ocorre no Museu da Cultura Mundial, em Gotemburgo, onde as peças estão depositadas. O processo de inventário começou no dia 6 de março e deve durar três semanas. Além da identificação, os pesquisadores estão registrando as peças em audiovisual para a produção de um documentário etnográfico e outras iniciativas de museu digital.

Resgate cultural e produção de material didático

Segundo Lilian Rebellato, coordenadora do projeto de repatriação digital e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), um dos objetivos é criar uma plataforma digital com o registro desses objetos. “O projeto prevê a digitalização de fotos, documentos e mapas da época, permitindo a comparação com a realidade atual desses grupos indígenas”, explica.

Durante o período na Suécia, os pesquisadores indígenas darão significado às peças e destacarão sua importância cultural. Além disso, serão desenvolvidos materiais didáticos para escolas indígenas.

O artesão Natã dos Santos, 51 anos, da etnia Palikur, viajou para participar do reconhecimento dos bancos sagrados utilizados em rituais de sua cultura. Ele é bisneto de um pajé que manteve contato com Nimuendajú em 1925. “Esses bancos não são para sentar, mas sim para serem usados em rituais como a Festa de Turé, que acontece de acordo com as fases da lua”, explica Natã.

Também fazem parte da expedição os professores indígenas Euvécio Labonte dos Santos (Palikur) e Milton Galibi Nunes (Galibi Marwono), que desenvolverão materiais didáticos sobre os artefatos, documentos e fotos digitalizados. Além disso, um esforço paralelo está sendo feito para traduzir cartas escritas por Nimuendajú em alemão antigo, um desafio devido às mudanças na língua ao longo do século.

Conexão entre passado e presente

Para Euvécio Palikur, reencontrar os objetos históricos é uma oportunidade de fortalecer a identidade cultural de seu povo. “Quero ver com meus próprios olhos se realmente é a cultura dos nossos antepassados e registrar tudo para trazer esse conhecimento de volta à nossa comunidade”, afirma.

Milton Galibi, professor e artista contemporâneo, destaca a importância da viagem para o resgate da dança tradicional Turé. “Muitos objetos no museu são desconhecidos pelos jovens de hoje. Quero entender o significado das marcas, dos formatos e dos materiais para reintroduzir esse conhecimento no nosso povo”, diz.

Milton também vê a interseção entre os projetos de repatriação digital e sustentabilidade como um elo entre tecnologia e ancestralidade. “A internet nos aproxima da cultura, mas ao mesmo tempo a globalização nos distancia dela. Essa viagem é uma forma de abraçar nossa memória novamente, de registrar essa cultura e, acima de tudo, de resistir”, conclui.

Com informações de Ascom-Ufopa